Liderança Digital e o Novo Papel do RH: Da Pirâmide ao Diamante
- ABRH-RJ

- há 1 dia
- 4 min de leitura
*Por Marcelo Nóbrega
No cenário atual, marcado por mudanças profundas no contexto organizacional e uma visível crise de liderança, o papel do profissional de Recursos Humanos nunca foi tão estratégico. O futuro do trabalho já é uma realidade desenhada por conceitos como a GIG Economy, longevidade, autonomia, tecnologia e IA e o modelo "work from anywhere". Nesse ecossistema, surge a necessidade imperativa da Liderança Digital.
O que é, de fato, a Liderança Digital?
Diferente do que pode parecer, não se trata apenas de dominar ferramentas tecnológicas. A liderança digital é a capacidade de impulsionar a transformação organizacional através do uso estratégico de dados e tecnologias, promovendo mudanças estruturais nos modelos de negócio, na cultura corporativa e nas formas de trabalho.
De forma mais ampla, é incorporar conceitos como humano centrismo, design thinking e agilidade aos processos de gestão de pessoas e à experiência do colaborador.
Para o RH, isso significa preparar líderes que saibam integrar conceitos e ferramentas digitais e a Inteligência Artificial à tomada de decisão e à gestão, ao mesmo tempo, desenvolver essas novas competências necessárias em suas equipes.
A Transição: De Pirâmides a Diamantes
As estruturas organizacionais estão sofrendo uma metamorfose. Estamos migrando do modelo tradicional de pirâmides para a chamada "Diamond Hierarchy" (Hierarquia Diamante).

(Fonte: Gartner Group)
Nesse novo formato:
· A base, o nível de entrada, encolhe e passa a ser ocupada predominantemente por robôs e agentes de IA.
· O centro da estrutura, agora mais largo que a base, será composto por orquestradores de tecnologia e IA.
· O topo da organização, ainda mais estreito do que hoje, permanecerá ocupado por executivos que se dedicam à Visão e à Estratégia.
Essa mudança exige que o líder abandone velhas fórmulas de sucesso e desenvolva uma visão periférica aguçada[1]. O RH deve estar atento, pois, enquanto empresas como a NetDragon já experimentam CEOs virtuais com performance superior ao mercado[2], outras promovem demissões em massa à medida que a adoção da IA se intensifica[3].
Crises de Engajamento e a "Grande Debandada"
As empresas enfrentam desafios críticos, como o fenômeno da Great Resignation (a grande debandada) que se arrasta há anos. Se em 2022 fomos surpreendidos com um número recorde de demissões voluntárias, 2025 superou essa marca.
Esse movimento é especialmente marcante entre os mais jovens. Outro fato que surpreende profissionais mais maduros é que esses talentos jovens não aspiram chegar a cargos de gerência devido ao estresse, à responsabilidade e à carga de trabalho.
Além do desafio da retenção de talentos, muitas empresas enfrentam dificuldades para entregar o resultado esperado por Conselhos e investidores. Como consequência, vimos 12% dos CEOs das 500 maiores organizações brasileiras perderem seus empregos[4] no ano passado.
O perfil do executivo brasileiro médio, em sua maioria pragmático e focado no curto prazo[5], costuma apresentar resistência a mudanças e dificuldades em adotar uma liderança transformacional – o que explica, pelo menos parcialmente, esse contexto desafiador.
O Caminho para o RH: Rituais e Re-humanização
Para navegar nesse novo mundo, o RH deve incentivar rituais que moldem uma cultura forte. Dados indicam que a prática de 1-on-1s, o reconhecimento e uma cultura de desenvolvimento e feedback aumentam drasticamente as chances de os colaboradores se sentirem mais engajados e, portanto, serem mais produtivos.
A eficácia do gestor moderno depende da sua habilidade em compreender motivações individuais e conectar interesses pessoais aos objetivos do negócio.
Em movimento oposto à substituição de seres humanos por tecnologia, a rede de supermercados Trader Joe´s nos EUA investe em criar intimidade com os clientes. Suas lojas possuem mais atendentes do que as da concorrência. Além disso, a rede procurar contratar pessoas que vivem próximo às lojas onde trabalham (ou seja, são vizinhos de seus clientes). Seguindo esse exemplo, o novo CEO da Starbucks anunciou que pretende aumentar o número de atendentes nas lojas da rede[6].


Talvez você conheça as roupas da marca japonesa Human Made. Fundada em 2010, a fabricante de streetwear se posiciona como um contraponto ao excesso de conteúdos gerados por inteligência artificial e produtos automatizados. Ela preza o toque humano, a curadoria e a análise crítica.
A marca, hoje, dá nome a um movimento muito mais amplo que valoriza o esforço humano na manufatura de produtos e entrega de serviços.

Ao que parece, o futuro aponta para organizações inspiradas em modelos como a Holacracia (como Gore Tex e Morning Star) ou as Empresas Teal (como Dengo, Patagonia e Bem & Jerry´s), que priorizam a autogestão e o propósito. O desafio do RH é, portanto, promover a re-humanização em um mundo cada vez mais digital, garantindo que a tecnologia sirva como ponte para o crescimento e a autonomia humana.
Fontes:
[1] Roselinde Torres, What it Takes to be a Great Leader, https://www.youtube.com/watch?v=aUYSDEYdmzw
[2] https://exame.com/negocios/conheca-a-ceo-que-nunca-descansa-nem-cobra-salario-isso-porque-ela-e-uma-inteligencia-artificial/
[3] https://forbes.com.br/carreira/2026/01/amazon-corta-16-mil-funcionarios-em-estrategia-de-eficiencia-e-ia/
[4] https://www.infomoney.com.br/business/global/por-que-a-rotatividade-de-ceos-nas-empresas-esta-aumentando-em-2025/
[5] Carvalho Neto, Antonio; Tanure, Betania; Santos, Carolina Maria Mota, & Lima, Gustavo Simão (2012). Executivos brasileiros: na contramão do perfil deificado da liderança transformacional. Revista de Ciências da Administração. v.14, n.32, p.35-49
[6] https://www.entrepreneur.com/business-news/starbucks-adding-new-staff-says-machines-alone-wont-cut-it/490980
_______________________________________________________________
Após uma carreira de 30 anos como executivo de TI e RH em multinacionais de diversos segmentos, Marcelo Nóbrega tem atuado como investidor, conselheiro, mentor, palestrante e advisor em IA e inovação em gestão de pessoas colaborando com empresas de tecnologia, boutiques de investimento, consultorias, publicações especializadas e executivos. É professor de cursos de pós-graduação em diversas instituições de ensino e host do podcast “Você está Contratado!”.


Comentários