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Liderança Digital e o Novo Papel do RH: Da Pirâmide ao Diamante

*Por Marcelo Nóbrega


No cenário atual, marcado por mudanças profundas no contexto organizacional e uma visível crise de liderança, o papel do profissional de Recursos Humanos nunca foi tão estratégico. O futuro do trabalho já é uma realidade desenhada por conceitos como a GIG Economy, longevidade, autonomia, tecnologia e IA e o modelo "work from anywhere". Nesse ecossistema, surge a necessidade imperativa da Liderança Digital.

 

O que é, de fato, a Liderança Digital?


Diferente do que pode parecer, não se trata apenas de dominar ferramentas tecnológicas. A liderança digital é a capacidade de impulsionar a transformação organizacional através do uso estratégico de dados e tecnologias, promovendo mudanças estruturais nos modelos de negócio, na cultura corporativa e nas formas de trabalho.


De forma mais ampla, é incorporar conceitos como humano centrismo, design thinking e agilidade aos processos de gestão de pessoas e à experiência do colaborador.


Para o RH, isso significa preparar líderes que saibam integrar conceitos e ferramentas digitais e a Inteligência Artificial à tomada de decisão e à gestão, ao mesmo tempo, desenvolver essas novas competências necessárias em suas equipes.

 

A Transição: De Pirâmides a Diamantes

As estruturas organizacionais estão sofrendo uma metamorfose. Estamos migrando do modelo tradicional de pirâmides para a chamada "Diamond Hierarchy" (Hierarquia Diamante).

 


(Fonte: Gartner Group)

 

Nesse novo formato:


·        A base, o nível de entrada, encolhe e passa a ser ocupada predominantemente por robôs e agentes de IA.

·        O centro da estrutura, agora mais largo que a base, será composto por orquestradores de tecnologia e IA.

·        O topo da organização, ainda mais estreito do que hoje, permanecerá ocupado por executivos que se dedicam à Visão e à Estratégia.

 

Essa mudança exige que o líder abandone velhas fórmulas de sucesso e desenvolva uma visão periférica aguçada[1]. O RH deve estar atento, pois, enquanto empresas como a NetDragon já experimentam CEOs virtuais com performance superior ao mercado[2], outras promovem demissões em massa à medida que a adoção da IA se intensifica[3].

 

Crises de Engajamento e a "Grande Debandada"


As empresas enfrentam desafios críticos, como o fenômeno da Great Resignation (a grande debandada) que se arrasta há anos. Se em 2022 fomos surpreendidos com um número recorde de demissões voluntárias, 2025 superou essa marca.


Esse movimento é especialmente marcante entre os mais jovens. Outro fato que surpreende profissionais mais maduros é que esses talentos jovens não aspiram chegar a cargos de gerência devido ao estresse, à responsabilidade e à carga de trabalho.


Além do desafio da retenção de talentos, muitas empresas enfrentam dificuldades para entregar o resultado esperado por Conselhos e investidores. Como consequência, vimos 12% dos CEOs das 500 maiores organizações brasileiras perderem seus empregos[4] no ano passado.


O perfil do executivo brasileiro médio, em sua maioria pragmático e focado no curto prazo[5], costuma apresentar resistência a mudanças e dificuldades em adotar uma liderança transformacional – o que explica, pelo menos parcialmente, esse contexto desafiador.

 

O Caminho para o RH: Rituais e Re-humanização


Para navegar nesse novo mundo, o RH deve incentivar rituais que moldem uma cultura forte. Dados indicam que a prática de 1-on-1s, o reconhecimento e uma cultura de desenvolvimento e feedback aumentam drasticamente as chances de os colaboradores se sentirem mais engajados e, portanto, serem mais produtivos.


A eficácia do gestor moderno depende da sua habilidade em compreender motivações individuais e conectar interesses pessoais aos objetivos do negócio.


Em movimento oposto à substituição de seres humanos por tecnologia, a rede de supermercados Trader Joe´s nos EUA investe em criar intimidade com os clientes. Suas lojas possuem mais atendentes do que as da concorrência. Além disso, a rede procurar contratar pessoas que vivem próximo às lojas onde trabalham (ou seja, são vizinhos de seus clientes). Seguindo esse exemplo, o novo CEO da Starbucks anunciou que pretende aumentar o número de atendentes nas lojas da rede[6]

 


Talvez você conheça as roupas da marca japonesa Human Made. Fundada em 2010, a fabricante de streetwear se posiciona como um contraponto ao excesso de conteúdos gerados por inteligência artificial e produtos automatizados. Ela preza o toque humano, a curadoria e a análise crítica.


A marca, hoje, dá nome a um movimento muito mais amplo que valoriza o esforço humano na manufatura de produtos e entrega de serviços.

 

Ao que parece, o futuro aponta para organizações inspiradas em modelos como a Holacracia (como Gore Tex e Morning Star) ou as Empresas Teal (como Dengo, Patagonia e Bem & Jerry´s), que priorizam a autogestão e o propósito. O desafio do RH é, portanto, promover a re-humanização em um mundo cada vez mais digital, garantindo que a tecnologia sirva como ponte para o crescimento e a autonomia humana.

 

Fontes:


[1] Roselinde Torres, What it Takes to be a Great Leader, https://www.youtube.com/watch?v=aUYSDEYdmzw

[5] Carvalho Neto, Antonio; Tanure, Betania; Santos, Carolina Maria Mota, & Lima, Gustavo Simão (2012). Executivos brasileiros: na contramão do perfil deificado da liderança transformacional. Revista de Ciências da Administração. v.14, n.32, p.35-49

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Após uma carreira de 30 anos como executivo de TI e RH em multinacionais de diversos segmentos, Marcelo Nóbrega tem atuado como investidor, conselheiro, mentor, palestrante e advisor em IA e inovação em gestão de pessoas colaborando com empresas de tecnologia, boutiques de investimento, consultorias, publicações especializadas e executivos. É professor de cursos de pós-graduação em diversas instituições de ensino e host do podcast “Você está Contratado!”.

 
 
 

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