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A ética e estética da liderança na era da polarização

*Por Fabio Rosé


As organizações absorvem as mudanças sociais mais profundas, e líderes precisam se posicionar ativamente diante desses desafios — uma afirmação simples que revela, porém, a complexidade do que significa liderar hoje. Grande parte do que fazemos está ligado ao que acontece em nosso contexto social: diferenças geracionais, aceleração tecnológica, pandemia e hiperconexão mudaram nossos comportamentos e hábitos. Isoladamente, cada um desses fatores é potente; juntos, aceleram transformações e aumentam a complexidade do impacto e produzem ainda mais incertezas.


A polarização atravessa todos os campos da vida social — de famílias e amizades a círculos de convívio — e, naturalmente, chega ao ambiente de trabalho. Opiniões e identidades que moldam relações pessoais se projetam nas dinâmicas profissionais. Ao mesmo tempo, consumidores cada vez mais alinham seus padrões de compra ao posicionamento de marcas, estreitando o vínculo entre escolhas de mercado e posturas públicas. Isso transforma decisões comerciais em sinais sociopolíticos e eleva o risco reputacional das organizações.

Vivemos um momento em que seria difícil imaginar a liderança à margem desses processos. Entre os desafios, a polarização se destaca pela sensibilidade. É um tema inflamável. Escolhas privadas e convicções públicas se entrelaçam e atravessam relações de trabalho e, para quem lidera, isso pode gerar tensões essenciais. 


É preciso uma arquitetura de liderança capaz de fortalecer a legitimidade das escolhas e oferecer um referencial coletivo quando controvérsias externas pressionam. O dilema é estratégico, ético e relacional. A neutralidade absoluta pode ser lida como alienação, fraqueza ou conivência, enquanto posicionamentos explícitos podem mobilizar e ao mesmo tempo afastar parcelas relevantes da equipe.


Encarada com pragmatismo, a polarização pode também impulsionar rigor nas decisões e criatividade nas soluções; ambientes plurais bem mediados tendem a gerar escolhas estratégicas mais robustas e adaptáveis.


Liderar exige, antes de tudo, trabalhar sobre o próprio viés. Maturidade emocional e política e a consciência das próprias limitações são essenciais. O momento pede sinalização de abertura e proximidade: escuta ativa, empatia estratégica e exercícios de perspectiva devem integrar a rotina de gestão — não para anular convicções, mas para traduzir diferenças em objetivos de trabalho que preservem colaboração e senso coletivo. Inspirar em contextos polarizados exige ainda mais coerência entre discurso e prática; quando há alinhamento entre o que se diz e o que se faz, mesmo colaboradores com visões distintas encontram pontos de ancoragem.


A polarização testa nossas instituições e nossas práticas. O convite à liderança é estético e ético: ampliar comportamentos e símbolos que inspirem ações coletivas enquanto se assume a responsabilidade pelos momentos de conflito. Integrando forma e propósito, a liderança constrói legitimidade para servir e sustentar o ambiente que queremos fomentar: não eliminando discordâncias, mas transformando em matéria prima para um projeto sustentável para o mundo corporativo.

 

Sobre Fabio Rosé


Com mais de 25 anos de como executivo, liderou projetos de transformação organizacional, atuando no Brasil, Chile, Venezuela, Suíça e Estados Unidos, em empresas de diversos setores, como Novartis, L´Oréal e Dasa.


Fundador da imanah e sócio da Escola Ecoar, Fabio é pedagogo com Mestrado pela  INSEAD -Fontainebleau, França - EMCCC: Coaching & Consulting for Change, e pós-graduações em Marketing (ESPM) e em Recursos Humanos (FGV).


Atua como Conselheiro (PlurieBR e MOS Incorporadora), Advisor, Coach Executivo e Consultor Organizacional de empresas no Brasil e no exterior.


É professor da FDC - Fundação Dom Cabral e e palestrante, desenvolvendo temas de Ciências Humanas, Liderança, Cultura, Gestão, D&I, Futuro do Trabalho e Inovação .

 
 
 

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