Burnout e os recomeços silenciosos
- ABRH-RJ

- 17 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Aléa Fiszpan*
Vivemos em um tempo acelerado, em que o trabalho facilmente se confunde com identidade. Entre metas, agendas lotadas e resultados impecáveis, há um silêncio quase imperceptível: o da exaustão. Um cansaço que não se resolve com férias, um vazio que não se preenche com bônus, uma inquietação que persiste mesmo quando o mundo aplaude as entregas.
O burnout, hoje reconhecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como fenômeno ocupacional, é mais do que desgaste profissional: é um sinal de ruptura, um chamado do corpo e da mente quando há distância demais entre o que se sente e o que se vive. Ele não nasce apenas de longas jornadas, mas também da soma de pressões invisíveis, da solidão em ambientes competitivos, da ausência de reconhecimento e da dificuldade de conciliar vida pessoal e profissional. Muitas vezes, não é o excesso de tarefas que adoece, mas o vazio de sentido em realizá-las.
É um esgotamento que não aparece nos relatórios, mas que se manifesta no dia a dia, no cansaço persistente, na queda de performance e na perda de vitalidade. Para alguns, ele chega como ansiedade constante; para outros, como apatia, insônia ou a sensação de não se reconhecer mais. Trata-se de uma experiência silenciosa, invisível aos olhos externos, mas profundamente transformadora para quem a vive.
Cada trajetória é única, mas há um ponto comum: ninguém deveria atravessar esse processo sozinho. O acolhimento, seja em redes de apoio pessoais ou em culturas organizacionais que favoreçam o diálogo, pode transformar a experiência. Quando a vulnerabilidade encontra espaço para ser expressa sem medo de julgamento, nasce também a confiança. Empresas que cultivam ambientes de escuta genuína e relações mais humanas ajudam a prevenir o esgotamento e, quando ele acontece, tornam possível um retorno mais consciente e sustentável.
E aqui está o paradoxo: o burnout pode ser, dolorosamente, um ponto de virada. No instante em que corpo e mente dizem “basta”, abre-se espaço para reencontros. Reencontros com o que dá sentido, com novas escolhas, com projetos mais alinhados ao que se deseja viver.
Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de enxergar nele a possibilidade de reconstrução. O esgotamento, quando acolhido e compreendido, pode ser o portal para uma vida mais verdadeira. É nesse espaço de pausa forçada que muitas pessoas encontram coragem para mudar, redefinir prioridades e escrever uma nova narrativa de carreira, não apenas sobre o que sabem fazer, mas sobre o que desejam ser.
O futuro do trabalho não será feito apenas de tecnologia e resultados, mas de consciência. Sem saúde e bem-estar, não há carreira sustentável. Toda conquista construída à custa do esgotamento se revela frágil e passageira.
Do burnout pode nascer um recomeço. E, quando a vida interna encontra novos contornos, surge também a clareza para se relacionar com o mundo de forma mais íntegra, mais sensível e mais fiel ao que, em essência, sempre fomos.
Aléa Fiszpan é formada em psicologia, com especializações em Desenvolvimento de Liderança pela University of California San Diego e Esalen Institute e Gestão Estratégica de Pessoas pela FDC/INSEAD Business School, com MBA no Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead/UFRJ).
Atualmente, na Wilson Sons, companhia com mais de 187 anos de trajetória e abrangência nacional, é diretora de Recursos Humanos e Comunicação. Atuou em grandes empresas, como Xerox, Claro, Fininvest e Contax e é membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-RJ).


Excelente reflexão sobre o burnout e a importância dos recomeços; quais métricas de RH a organização pode usar para identificar os "recomeços silenciosos" antes que se tornem um problema crônico? Cordialmente <a href="https://jakarta.telkomuniversity.ac.id/en/lidar-sensors-on-drones-for-more-accurate-3d-mapping/">Telkom University Jakarta</a>