Usar IA não te faz um líder melhor. A cultura que você cria, sim.
- ABRH-RJ

- há 18 horas
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*Por Natália Franco
Existe uma armadilha em que empresas caem repetidamente: acreditam que adicionar IA aos processos existentes vai esconder os problemas em vez de revelá-los. Que os dados são bons o suficiente. Que as pessoas vão se adaptar. Que a cultura se ajusta sozinha depois.
Não funciona assim.
A IA é um acelerador. Ela amplifica o que já existe. Se a liderança é vaga na comunicação, a IA vai produzir textos vazios com muito mais velocidade. Se a cultura pune o erro, a IA vai ser usada às escondidas. E um estudo da OIT, de maio de 2025, traz uma nuance importante: um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à IA generativa, mas o resultado mais provável é a transformação, não a substituição. O problema, então, não é a ferramenta. É a cultura não estar preparada para a mudança que ela exige.
O que a IA revela sobre a liderança é justamente o que ninguém estava esperando encontrar.
Quando um líder aprende a construir um prompt bem feito, ele precisa ser claro sobre o que quer. Precisa articular o contexto, o objetivo, o tom. Precisa saber o que está pedindo antes de pedir. Para quem lidera pessoas todos os dias, esse exercício não é técnico. É profundamente humano. Quantas reuniões mal conduzidas existem porque a liderança não tinha clareza do que queria comunicar? Quantos feedbacks vagos foram dados por falta de organização do pensamento, não de boa intenção?
Um exemplo concreto: um líder pede à IA que escreva uma avaliação de desempenho para um colaborador que "faz um trabalho sólido, mas precisa ser mais assertivo". A IA produz três parágrafos impecáveis. O colaborador recebe um texto bonito, e nenhuma orientação real sobre o que precisa mudar para crescer. O RH percebe que o feedback não atende ao que a empresa está pedindo. Ninguém ganhou nada além de um item riscado da lista.
A ferramenta não tem como saber quem são os destinatários daquela resposta e o que cada um precisa. Isso é trabalho do líder. E quando a liderança não faz esse trabalho, a IA apenas acelera a superficialidade.
Na Loggi, quando treinamos líderes a usar IA para cruzar perfis comportamentais, preparar devolutivas de avaliação ou estruturar uma conversa difícil, o que acontecia não era automação. Era reflexão. Os líderes começavam a perceber padrões nos próprios times que nunca tinham nomeado. Pontos cegos que a correria do dia a dia escondia. E, à medida que a IA assumia as tarefas operacionais, o que sobrava era o que sempre deveria ter sido o foco da liderança: conversas reais, desenvolvimento genuíno, presença nas
horas que importam. A liderança não ficou mais eficiente só porque economizou tempo. Ficou melhor porque usou esse tempo para fazer o que sempre foi seu papel, e que a rotina insistia em engolir.
Mas esse potencial só apareceu porque criamos um ambiente onde era seguro experimentar.
Antes de qualquer workshop, tivemos que lidar com o medo. No próprio time de RH, a resistência foi grande, o receio de que a IA tirasse a "humanização" dos processos. O convencimento veio ao mostrar o lado oposto: a IA assumiria a carga operacional para que os humanos pudessem ser mais humanos. Usar IA para transcrever entrevistas ou revisar comunicações significa que o líder ganha tempo real para olhar nos olhos do colaborador, dar feedbacks profundos, focar no desenvolvimento das pessoas.
Se a empresa não endereça o medo, o treinamento mais caro do mundo não muda nada. As pessoas fazem o curso, recebem o certificado e voltam para as mesmas práticas de sempre.
O que faz a diferença não é a ferramenta. É o que acontece antes e depois dela.
Antes: uma liderança que se posiciona com clareza, que experimenta publicamente, que normaliza o erro como parte do aprendizado. Na Loggi, nosso CEO não era só apoiador do programa, era usuário ativo, que compartilhava abertamente o que estava testando. Isso não é detalhe. É o que dá permissão para o restante da organização se mover.
Depois: rituais que sustentam o aprendizado no tempo. Não evento pontual. Não palestra inspiradora que some em duas semanas. Grupos de troca, desafios semanais, espaço para apresentar o que funcionou e o que não funcionou. O aprendizado real sobre IA é coletivo ou não acontece, o tema muda rápido demais para alguém aprender sozinho.
Há também a questão do que medir. Muitas empresas acompanham horas economizadas e tarefas concluídas, e perdem o que realmente importa: decisões mais assertivas, equipes mais autônomas, relações de trabalho mais saudáveis. O Gartner estimou que menos de 1% das demissões no primeiro semestre de 2025 tiveram relação com ganhos reais de produtividade via IA. Ou seja, empresas estão cortando pessoas pela expectativa da tecnologia, não pelo resultado que ela entregou. Medir só o óbvio é perder a transformação mais importante que está acontecendo.
Cada empresa tem seu contexto, sua maturidade, seus recursos. O que funcionou na Loggi não é receita para replicar. É referência para adaptar. O ponto de partida importa menos do que a clareza sobre onde se está e para onde se quer ir.
O que não muda, independente do estágio, é a condição de fundo: cultura precisa chegar antes da tecnologia. Ou junto. Nunca depois.
Às vezes, o maior valor da IA para a liderança não é a resposta que ela gera. É a pergunta que ela obriga você a fazer.
Natália Franco é Gerente de Inovação em RH na Loggi, LinkedIn Top Voice em IA, palestrante e criadora do programa Inovando com InteligêncIA.


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