Dare mo ShiranaiUMA HISTÓRIA DE IRRESPONSABILIDADE E SOBREVIVÊNCIA
por: Myrna Silveira Brandão
Um caso real ocorrido em 1988 em Tóquio – que ficou conhecido como “ os quatro abandonados de Nishi-Sugamo” é o tema do filme Ninguém pode Saber, do diretor japonês Kore-Eda Hirokazu, que chega ao circuito brasileiro.
O fato, que comoveu a opinião pública na época, aconteceu com uma família de baixa classe média em dificuldades, quando Keiko, uma mãe irresponsável abandona seus quatro filhos, e eles, temendo serem separados, durante seis meses fingem que nada aconteceu e continuam tentando sobreviver no pequeno apartamento onde a família morava. A situação só vem à tona quando uma das crianças morre.
Uma das razões que contribuíram para as crianças não serem descobertas mais cedo é que – como o título diz – ninguém sabia que elas viviam ali. Quando a mãe alugou o apartamento, apresentou ao senhorio apenas o filho mais velho de 12 anos, Akira, a quem ela encarregou de cuidar dos demais, quando foi para Osaka em busca da emprego. Para evitar o risco de serem despejados, os dois menores haviam entrado no apartamento dentro de malas, enquanto a filha de 11 anos chega depois e é apresentada como uma sobrinha de passagem por Tóquio.
A interpretação do personagem Akira deu ao jovem Yagira Yuya o prêmio de melhor ator no último Festival de Cannes, onde o filme concorreu à Palma.
“Desde que o fato ficou conhecido e foi para a mídia, tinha intenção de trazê-lo para as telas e, através do drama vivido pela família, falar também nas transformações sociais ocorridas no Japão nas últimas décadas”, explica Hirokazu.
Narrado em tom documental, o filme é perturbador. Seguindo a cronologia das estações do ano, Hirokazu vai mostrando a degradação física das crianças abandonadas pela mãe. Na medida em que elas crescem, vão ficando mais magras, sujas e num local que se aproxima cada vez mais de um chiqueiro, sem água, sem luz e sem gás, cortados por falta de pagamento.
A comparação com situações vividas por outras crianças no Japão e em outros lugares do mundo é inevitável. A mulher é mãe solteira, os filhos têm pais diferentes que não assumiram os filhos e as crianças sequer estão matriculadas numa escola.
“As pessoas ainda têm uma visão romântica da família tradicional japonesa como foi retratada em muitos filmes do passado, como os de Ozu (Yasujiro)”, diz Hirokazu, que manifesta sua admiração pelo consagrado cineasta, mas ressalva que hoje a realidade social no seu País é completamente diferente.
Fiel ao seu estilo humanista, o diretor manifesta carinho pelos seus personagens expresso na forma delicada – e, em alguns momentos, positiva – que procura imprimir ao filme. “Não queria mostrar apenas a degradação dos valores na nossa cultura atualmente, mas também ressaltar a riqueza da relação entre os irmãos , que ao lado do medo e da tristeza, mantiveram durante todo o tempo fortes laços de compreensão e solidariedade ”, afirma.
Essa tem sido uma característica do seu cinema, mais conhecido do público brasileiro através dos belos Depois da Vida e Maborosi, filmes que também mostram o ser humano em situações de perdas.
Hirokazu é mais um cineasta que vem utilizando sua câmera para contar histórias e , ao mesmo tempo denunciar a injustiça e a ausência de valores básicos no mundo de hoje, cada vez mais desumano, insensível e egoísta.
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