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Heloisa Coelho - Diretora-Executiva do RIOVOLUNTÁRIO

“Voluntariado Sem Limites”

 

O apoio às vítimas das enchentes de Santa Catarina está atuando neste mês de dezembro – e esperamos que também nos próximos - como uma espécie de despertador para a demanda cada vez maior e necessária do voluntariado no país. Heloísa Coelho, Diretora-Executiva do RIOVOLUNTÁRIO e ícone nacional nesta área explica nesta entrevista que o brasileiro é, sem dúvida, muito solidário, mas preciso ser mais voluntário, o que envolve “ações transformadoras”.

 

Por Alexandre Peconick (texto e foto)

 

 Graduada em Comunicação, com MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pelo Instituto de Economia da UFRJ, onde também faz parte do corpo docente, Heloisa nos dá aqui uma aula de voluntariado o que, em sua essência, também está na prática de boa parte dos associados da ABRH-RJ.

 

 Professora primária desde os 18 anos, ela desde jovem lecionava em escolas públicas de localidades de baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), como Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), fato que acelerou sua consciência e o desejo de ser voluntária. Mas trabalhava muito e cuidava dos filhos não tendo tempo à época. Em 1990 com a diminuição do trabalho e crescimento dos filhos surgiu o tempo de estrear o trabalho voluntário, o que aconteceu na favela da Rocinha. E em 1997 ela fez o projeto, que aprovado pelo BID (Banco Inter-Americano de Desenvolvimento), possibilitou a criação do RIOVOLUNTÁRIO, para o qual também muito contribuiu um recurso da FIRJAN (Federação das Indústrias do Estado do Rio) doando uma pequena sala para a sede da ONG.

 

Representante Nacional da IAVE (Internacional Association for Volunteer Effort); Heloisa foi Representante do Brasil no Lançamento do Ano Internacional do Voluntário nas Nações Unidas, em Nova Iorque (EUA), e Vice-Presidente do Comitê Nacional do Ano Internacional do Voluntário. Nesta entrevista entendemos com profundidade um pouco dos porquês do respeito que seu trabalho alcança no Brasil e no exterior.

 

SITE DA ABRH-RJ - Até onde o significado do termo “voluntário” pode chegar?

 

Heloisa Coelho – Considero que “Voluntariado” e “Voluntário” são termos hoje sem limites. Eles variam conforme a época, de sociedade para sociedade, de cultura para cultura. Se formos analisar no Iraque o que seria por lá o voluntariado temos um trabalho diário com as vítimas dos bombardeios, seria uma ajuda mais humanística. Por outro lado, se formos ver a Finlândia que tem sua economia já resolvida, mas pessoas com problemas de depressão e falta de motivação, esse voluntariado vai ser exercido mais em nível mental, de conscientização. Cada cultura prevê um tipo de relacionamento, então o voluntariado depende sempre de um diagnóstico social de cada região.

 

SITE DA ABRH-RJ - E existe diferença entre “voluntariado” e “solidariedade” ou ambos se confundem? Por quê?

 

Heloisa Coelho – São termos diferentes que se complementam. Para mim alguém é solidário a algumas causas. Mas quem é solidário não faz nenhuma ação para aquela causa na qual acredita. Ele acredita, apóia, mas não atua. Quando se é solidário, por exemplo, à questão do negro, à questão da mulher, dos deficientes, se é sensível, mas você fica ali estático. Já o voluntário subentende uma ação social envolvida. O voluntariado implica na pessoa agir como um transformador da realidade. Voluntário é agente de transformação.

 

SITE DA ABRH-RJ - De que forma o que vem acontecendo com a população de Santa Catarina tem, em sua opinião, sensibilizado os meios corporativos no sentido de acordar para a necessidade de envolvimento no voluntariado?

 

Heloisa Coelho – Muito boa pergunta. Concordo com o Otto Lara Rezende, que dizia que “mineiro só era solidário no câncer”. Então é muito comum acontecer isso da pessoa ser solidária no momento em que vê outras passarem por uma grande catástrofe e perderem muito. É claro que esta situação de Santa Catarina mobiliza muito e serve como uma fonte catalisadora para que uma empresa para solidificar o voluntariado. A empresa fazendo uma ação, mobilizando equipes para se engajar em uma ação pode fazer nascer um programa de voluntariado que não existia dentro da empresa. A empresa pode mostrar ao seu colaborador a força dos resultados de sua ação para que esta não fique com algo meramente pontual. Uma ação pode desencadear outra se mexer com a motivação das pessoas.

 

SITE DA ABRH-RJ - Essa coisa do brasileiro precisar sentir dor no coração para tomar uma atitude é uma reação cultural?

 

Heloísa Coelho – Acho que nós brasileiros temos um temperamento um pouco acomodado. Somos extremamente solidários, tanto que há uma mobilização nacional por Santa Catarina, mas tudo só acontece a partir de uma grande tragédia.

 

SITE DA ABRH-RJ – Observamos, contudo, pontos positivos nos processos seletivos de algumas empresas que valorizam candidatos que já tenham prestado algum trabalho voluntário. Em sua opinião por que essa tendência vem se ampliando?

 

Heloisa Coelho – As empresas não são bobas. Elas já sabem o benefício que as pessoas que fazem trabalho voluntário trazem ao ambiente organizacional. Essas pessoas normalmente têm a questão da responsabilidade como um valor muito mais maduro e desenvolvido; mas não só isso, também trazem a questão do compromisso, a questão da tolerância ao outro, de lidar melhor com a diversidade. Tudo isso irá não apenas desenvolver mais o profissional como, sem dúvida, contribuir para o aprimoramento da performance da empresa. Selecionadores e gestores de empresa sabem que voluntariado desenvolve iniciativa e trabalho em equipe, valores que qualquer empresa considera valiosíssimas na prática. E na prática do voluntariado você aprende a ser mais cooperativo, a ter mais compromisso, a ser mais tolerante.

 

SITE DA ABRH-RJ – Nesse sentido, o Voluntariado é uma espécie de curso de valores?

 

Heloisa Coelho – É sem dúvida um curso altamente prático, o tempo todo. Por isso é muito importante que cada empresa desenvolva sua própria filosofia de Voluntariado.

 

SITE DA ABRH-RJ – É possível no ambiente corporativo, ou fora dele, o gestor identificar pessoas que tenham “talento” ou aptidão” voltada ao voluntariado? Como isso acontece?

 

Heloisa Coelho – A questão do voluntariado passa, na verdade, muito mais pela motivação do que por qualquer outro fator. E a motivação é variada, ou seja, cada pessoa terá uma motivação por um determinado motivo. Um porque perdeu um ente querido por determinado doença, alguém que teve os filhos envolvidos com drogas entra na campanha anti-drogas ou ajuda a recuperar drogados ou alguém que já aposentou cedo e quer usar sua energia no trabalho voluntário. E há os jovens que já querem exercitar no voluntariado valores que ele já vislumbra nas empresas. A palavra “voluntário” vem de “vontade” e de “desejo”. E para gerar prazer em uma atividade você não precisa ter uma aptidão específica. Se você tem vontade de fazer aquilo poderá de fato fazer.  O trabalho voluntário pode ter algo a ver com sua formação profissional, mas também pode não ter nada a ver.

 

SITE DA ABRH-RJ – Mas o gestor consegue ver isso em seu colaborador?

 

Heloisa Coelho – Uma boa forma de começar a tentar identificar é mostrando para a sua equipe de colaboradores um artigo que fale a fundo de Voluntariado e avaliar o feedback de cada um em relação ao artigo. É como jogar uma isca verificando quem irá fisgá-la. Algumas pessoas que estão ao seu lado às vezes fazem voluntariado e você não sabe disso porque não conversa com ela sobre sua vida pessoal. 

 

SITE DA ABRH-RJ - Como podemos nos tornar um voluntário?

 

Heloisa Coelho – Qualquer um pode se tornar um voluntário, não sendo necessariamente ligado a uma instituição. Basta analisar o seu entorno e se sensibilizar com ele. Ser voluntário não é ser “assistencialista”, que é, este, um termo negativo.  Existem pessoas mais vulneráveis que precisam mais de assistência de uma solução pontual, mas em geral o assistencialismo não enxerga as causas do problema. Então uma característica que faz um verdadeiro voluntário é a intenção clara em se atingir a causa dos problemas e transformar uma situação social. A consciência deve ser a de transformar a vida de outras pessoas e de seu universo de trabalho; jamais a de tirar vantagens pessoais com uma ação social.

 

SITE DA ABRH-RJ – A concepção sempre foi assim?

 

Heloisa Coelho – Voluntariado mudou através dos séculos. Temos quase 500 anos de história no voluntariado, boa parte deles ligados ao aspecto religioso e exercido por mulheres. Com o Betinho, em 1993, com 32 milhões passando fome, mudou a consciência e o perfil do voluntário. A coisa de fazer caridade deixou de ser o único foco do voluntário.

 

SITE DA ABRH-RJ – Voluntariado deixou de ser só “matar a fome” para também ser “matar a sede de conhecimento das pessoas”...

 

Heloisa Coelho – Exatamente! Passou a se pensar o que eu possa fazer para ajudar a pessoa a sair de fato de uma situação ruim. Apesar de ainda persistir muito do assistencialismo, que em nosso país também continua sendo necessário. Pessoas que passam fome precisam de um sopão. São duas formas de voluntariado que convivem paralelamente.

 

SITE DA ABRH-RJ – E voluntariado, de qualquer maneira, gera crescimento profissional...

 

Heloisa Coelho – Voluntariado gera um crescimento interno muito grande como pessoa, porque ninguém é um grande profissional sem ser uma grande pessoa. Tenho certeza absoluta que aqueles que praticam o voluntariado têm um crescimento acelerado.

 

SITE DA ABRH-RJ – Esta asfixia que vive o mundo, com aquecimento global, sustentabilidade crescendo em importância – preservação do verde e da sociedade – isso também contribui para o crescimento do voluntariado?

 

Heloisa Coelho – Essas são questões de voluntariado das mais fortes do mundo. São movimentos internacionais que captam recursos porque querem contribuir realmente para preservar o maio ambiente. Tudo está conectado.

 

SITE DA ABRH-RJ - Você acha que o voluntariado é uma boa forma de criar parcerias entre instituições públicas e privadas que dêem extensões e asas a outros projetos? Como isso ocorre na prática ou como deveria ser o procedimento ideal para render frutos mais eficazes?

 

Heloisa Coelho – Tem aumentado muito o número de empresas que oferece aos seus colaboradores a oportunidade de desenvolver trabalho voluntário. Então existem ações que este grupo de colaboradores realiza em órgão público ou em uma ONG. Há uma potencialização e intensificação do trabalho voluntário. Empresários trazem sua expertise, sua visão de resultados e provocam mudanças positivas no trabalho voluntário e, mais importante, geram continuidade.

 

SITE DA ABRH-RJ – O grande crescimento do voluntariado se dá por esta questão da continuidade não é mesmo?

 

Heloisa Coelho - Não exatamente. As pessoas hoje, em geral, têm pouco tempo para se dedicar às ações voluntárias continuamente. Então isso não invalida ações pontuais, desde que sejam bem organizadas. É interessante não deixar de valorizar ações pontuais que despertem as pessoas para certas realidades, com objetivos e que também gerem benefícios para a imagem da empresa e suas pessoas. É importante que qualquer ação de voluntariado vislumbre uma mão-dupla, ou seja, beneficie quem faz e quem recebe a ação.

 

SITE DA ABRH-RJ – Empresas que abrem espaço para o voluntariado ou que investem em tais ações têm mais facilidade para reter seus colaboradores (funcionários)?

 

Heloisa Coelho - Acho que sim. O funcionário quer se orgulhar de pertencer à determinada empresa. Empresas que alcançam o respeito de seu funcionário, em geral, apresentam turnover bem mais baixo.

 

SITE DA ABRH-RJ – O RIOVOLUNTÁRIO nesse sentido cria parceria com as empresas ajudando-as a abrir os olhos para estas ações possíveis?

 

Heloisa Coelho – Sim. Temos até no RIOVOLUNTÁRIO um setor que chama Voluntariado Empresarial que motiva as empresas. É um trabalho voltado para cada tipo de empresa, customizado, que dá suporte às empresas para que elas possam planejar as ações, passo a passo. Muitas empresas têm um programa único que é replicado para todas as suas unidades.

 

SITE DA ABRH-RJ – Qual é a importância do dia 5 de dezembro – Dia Internacional do Voluntariado – o Brasil já acordou para a importância desta data?

 

Heloisa Coelho – Vem crescendo muito no Brasil a importância dada ao trabalho voluntário. Quando começamos no Brasil esta palavra “voluntário” soava até meio estranho. Acontecerá agora em 2011 (2001 – que foi o Ano do Voluntariado +10) uma intensificação do Ano do Voluntariado. Estamos pensando em ampliar muito a rede. Cinco centros – Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul, Sanra Catarina e Paraná – se reuniram para formar a Rede Brasil Voluntário que pretende se expandir.

 

SITE DA ABRH-RJ – Para 2009 muitas empresas trabalham sob a sombra ameaçadora da CRISE. Como se deve pensar Voluntariado em tempos de crise? Afinal, crise ajuda ou atrapalha o Voluntariado?

 

Heloisa Coelho – Dizem que crise gera oportunidades. Temos que repensar outras formas de voluntariado. Quando há uma crise em geral as empresas cortam investimentos sociais.

 

SITE DA ABRH-RJ – E isso é um erro?

 

Heloisa Coelho – Sim. Porque hoje em dia a crise social brasileira é tão grave e secular que já sabemos que qualquer governo sozinho não conseguirá resolver. A sociedade civil sozinha também tem um limite. Então todos os setores têm que estar juntos para resolver. Pode ser que a crise reduza o investimento, mas é melhor reduzir do que cortar totalmente. Isso iria gerar um caos urbano em proporções muito maiores do que aquele que temos hoje. Devemos procurar um voluntariado planejado e organizado.




Heloisa Coelho foi a representante do Brasil no Ano Internacional do Voluntariado em 2001


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