O Comovente SonhadorO sensível filme de Paulo Thiago expõe projeto de inclusão social pela música
Myrna Silveira Brandão
Baseado em fatos reais, o filme Orquestra dos Meninos, de Paulo Thiago, conta a história do maestro Mozart Vieira, que na década de 80, no profundo sertão pernambucano, resolveu ensinar música para crianças que trabalhavam no campo.
Num ambiente agreste e árido, a orquestra de jovens, quase como num milagre, passa a interpretar obras de Bach, Mozart, Villa-Lobos, entre outros grandes nomes.
As notas musicais da orquestra ecoam além da região e a grande repercussão acaba provocando violência e a difamação do maestro por parte dos poderosos da cidade, que o temem como uma nova liderança.
Para desestabilizar seu trabalho, seqüestram um dos meninos e lhe fazem várias ameaças; Mozart é acusado de ter sido ele o seqüestrador, além de ser chefe de uma seita secreta.
Na verdade, as forças políticas conservadoras que dominavam a região, lideradas por velhas e carcomidas oligarquias, sentiram-se ameaçadas pela semente do Novo plantada pelo maestro. Mozart só conseguiu superar a angustiante situação porque conseguiu apoios importantes como o de Don Helder Câmara, conhecido por sua força política e grande liderança religiosa.
Após superar obstáculos aparentemente invencíveis, a orquestra foi reconhecida internacionalmente e, com ajuda de países como a Bélgica e a França, Mozart conseguiu criar uma fundação, na qual hoje cerca de 200 crianças e jovens aprendem a arte da música.
O esforço de Mozart Vieira para concretizar seu sonho é transposto para a tela por Thiago com música, sensibilidade e lições de vida.
Para expressar a simplicidade e a emoção dos personagens, Thiago optou por uma linguagem trabalhada sob a estética de documentário. Na fase inicial da história, os personagens vivem crianças entre 13 e 14 anos que precisam trabalhar na roça para ajudar a família. A fase seguinte mostra os ritos de passagem e o envolvimento dos jovens com a música e a orquestra.
O elenco, liderado por Murilo Rosa – que interpreta Mozart – inclui Priscila Fantin, Othon Bastos e jovens da comunidade de uma cidade de Sergipe, onde a história foi locada.
Thiago acompanhou o caso pelos jornais da época e decidiu filmar a versão ficcional da história em 2000. Levou oito anos para realizar o longa-metragem, que utiliza locações externas – nenhuma cena foi feita em estúdio – e em estilo naturalista de iluminação.
“Haveria várias formas de contar essa história. Não quis fazer um filme sobre a violência nem mais uma história sobre a miséria. O que mais me interessou foi a história do artista que luta e faz sua parte para mudar o mundo. A música ocupa grande parte do filme e é ela que está sendo atacada, a sua capacidade de elevação sobre todas as dificuldades. A luta do maestro é a do artista e eu resolvi fazer dela a minha luta”, explica o diretor.
O roteiro, escrito a seis mãos por Thiago, Melanie Dimantas e Graciela Maglie, propicia riquíssimos momentos de sensibilidade e delicadeza ao evidenciar a descoberta da musicalidade por aquelas pessoas simples até então dominadas pela rudeza de suas vidas.
O filme é, acima de tudo, a trajetória de um sonhador que não desiste de realizar sua meta, mesmo que aparentemente pareça impossível.
A história mostra como o poder de uma vontade pode provocar uma grande transformação e a importância de resgatar figuras como o Maestro Mozart Vieira, um verdadeiro exemplo de persistência para realizar seu sonho e dividi-lo com outros seres humanos.
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