UMA HISTÓRIA EMOCIONANTE E SENSÍVEL E HUMANISTAfonte: Myrna Silveira Brandão
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, tem comovido os espectadores, nos locais onde já foi mostrado.
O filme – que foi selecionado para a mostra oficial do 57º Festival de Berlim, depois de nove anos ausente da mostra competitiva – é ambientado nos anos 70, na época da Copa do Mundo no México e no auge da ditadura militar. Nesse contexto, conta a história de Mauro, um garoto de 12 anos que de repente é exilado de sua família e precisa conviver como um estrangeiro e numa cultura com hábitos e costumes que ele desconhece.
Os pais de Mauro são perseguidos pela ditadura militar da época e obrigados a “sair de férias” por uns tempos. Enquanto isso, o menino tem que se virar sozinho e tentar entender as repentinas transformações ocorridas em sua vida.
A idéia de realizar o filme surgiu quando Hamburger estava na Inglaterra e ficava incomodado com o clichê e os estereótipos que muitos estrangeiros tinham do Brasil.
“Para eles, o país era uma espécie de selva, com índios pela rua, carnaval o ano todo, futebol, favelas e pobreza. Então achei importante fazer um filme que falasse das diferenças éticas e culturais, dos imigrantes, do exílio, enfim de outros temas que eles não consideravam”, afirma.
Hamburger é filho de mãe católica com pai judeu alemão, que veio para o Brasil com a Segunda Guerra. Além disso, é um apaixonado por futebol e, num período de sua vida, foi goleiro. Tudo isso faz com que o filme tenha muito a ver com sua experiência pessoal. Mas para o diretor, seu filme não se resume somente à memória.
“É a história de uma criança que de repente fica sozinha em um local estranho e que tem a ditadura como elemento opressor. E no meio do seu sofrimento, tenta encontrar afeto e alegria num ambiente de muita solidão e opressão”, esclarece.
O filme procura fazer uma analogia com a chegada de Mauro na comunidade judaica – como um estrangeiro chegando num local desconhecido – e a fuga dos judeus no holocausto. E ao fazer isso, aborda, com muita inteligência, a possibilidade de misturas culturais e étnicas e a busca da coexistência pacífica, uma forte característica da cultura e dos costumes brasileiros.
O trabalho dos atores é muito bom, principalmente o de Michel Joelsas, que interpreta Mauro e da ótima Daniela Piepszyk, como a menina Hanna, amiga do garoto, papel que marca sua estréia no cinema.
A escolha do ator mirim foi um processo demorado com a realização de 1200 testes, até chegar a Joelsas. Quando iniciou o filme, o garoto tinha 12 anos, estudava numa escola da comunidade judaica e nunca tinha pensado em ser ator. Em seu primeiro papel, demonstrou um excelente desempenho, conseguindo expressar toda a angústia do personagem ao ser repentinamente abandonado pelos pais e, ao mesmo tempo, conservando a inocência e a alegria das crianças de sua idade.
O fato de a história ser mostrada através de um olhar infantil, dá um quê de universalidade ao filme. E a questão das reações e comportamentos que marcam a infância é muito bem colocada, fazendo com que o filme tenha uma enorme empatia com os espectadores, já que essa é uma fase da vida importante para todo o mundo, seja para o bem ou para o mal.
A metáfora de uma vivência no exílio, o perfeito equilíbrio entre os lances históricos e o os dramas humanos e, acima de tudo, a extrema simplicidade com que é a história contada, fazem de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias um filme altamente emotivo, mas que, em nenhum momento apela para argumentos piegas ou falsos sentimentalismos. Se o sentimento existe, se deve à bela e emocionante história mostrando os pequenos e grandes dramas que podem afligir a humanidade. E como o ser humano tem uma incrível capacidade de superá-los.
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