Abril DespedaçadoQUANDO OS PARADIGMAS PODEM SER QUEBRADOS
Filme que será exibido e debatido no Congresso RH 2006, mostra que há sempre lugar para o novo
por Myrna Silveira Brandão
Abril Despedaçado, o ótimo filme do consagrado cineasta brasileiro Walter Salles, será pano de fundo para um Talk Show no Congresso RH 2006, que acontece nos dias 07, 08 e 09 de maio.
A história se passa no início do século e segue Tonho (Rodrigo Santoro), filho do meio da família Breves, impelido pelo pai (José Dumont) a vingar a morte do seu irmão mais velho, vítima de uma luta ancestral entre famílias pela posse da terra. Se cumprir a missão, ele sabe que sua vida ficará partida em duas: os 20 anos que ele já viveu e o pouco tempo que lhe restará para viver. Ele será então perseguido por um membro da família rival, como dita o código da vingança da região. Angustiado pela perspectiva da morte e instigado pelo seu irmão menor Pacu (Ravi Ramos Lacerda), Tonho começa a questionar a lógica da violência, da tradição e da perpetuidade. Questionamento que ganha mais força ainda quando dois artistas de um pequeno circo itinerante cruzam o seu caminho: Salustiano (Luiz Carlos Vasconcelos) e Clara (Flávia Marco Antonio).
O filme é baseado no livro Abril Despedaçado de Ismail Kadaré sobre o Kanum - o código que regulamenta os crimes de sangue na Albânia
A partir do livro de Kadaré, Salles faz uma aculturação brasileira do Kanun, resultando em que a história que se passa em abril de 1910, se torne
atemporal e contemporânea.
Para melhor fundamentá-la, o co-roteirista Sérgio Machado realizou uma extensa pesquisa sobre as lutas de família no Brasil, que coincidentemente tiveram o apogeu por volta de 1910 - na mesma época em que Kadaré situa o seu livro A pesquisa se baseou principalmente no livro lançado nos anos 40 - Luta de Famílias no Brasil - sobre o confronto entre os Montes e os Feitosas no sertão dos Inhamuns no Ceará.
A vingança entre famílias ocorre devido à ausência do estado regulador - como foi o caso dos Pires e Camargos em SP - e Feitosas e Montes no Ceará Em Abril Despedaçado, os Breves - são latifundiários da mono cultura da cana - decadentes. Os Ferreiras são latifundiários em expansão - criadores de gado. As mulheres da família são conformistase e embora sofram terrivelmente com a perda de seus filhos, se tornam coadjuvantes na manutenção do inexorável ciclo da vingança.
A libertação e a mudança No momento em que Tonho consegue derrubar as
> barreiras, ele se transforma e consegue alargar sua visão de mundo. Afloram então as questões da fraternidade - da descoberta do afeto - e da redenção trazida pela presença significativa do outro (no caso Pacu, o suporte ético do filme e Clara, a plenitude do amor) Tonho deixa de ser objeto da ação dos outros, evidenciado uma verdade inquestionável: quando não somos sujeitos de nossas ações, deixamos de dominar o presente imediato e os projetos futuros.
Quando Tonho liberta-se daquele domínio e pega outra estrada, ele parte rumo a uma vida nova. Parte em direção ao mar redentor e em busca das emoções por longo tempo sufocadas.
Depois disso ele não seria mais o mesmo - a apatia e o conformismo se convertem em ação e transformação.
O filme propicia uma reflexão do nosso papel no mundo como pessoas, cidadãos, profissionais e gestores de pessoas, levando-nos a concluir que as ações que podem transformar são aquelas que transcendem ao próprio indivíduo, são aquelas voltadas não apenas para as organizações, mas também as que se voltam para a comunidade, para a sociedade, para o mundo.
O filme propicia igualmente o debate em torno de quais valores devem ser perpetuados e a que mundo ideal do trabalho queremos chegar.
> Para isso, é cada vez mais importante conhecer os valores da organização e se sentir parte da missão.
Nesse contexto é fundamental fortalecer a missão histórica do área de RH, que proporcionará o entendimento e a união de todos em torno da cultura corporativa.
A exemplo do Tonho de Abril Despedaçado, é o momento em que encontramos eco junto ao outro que podemos determinar o fim dos valores estagnados e da imobilidade.
Como o herói do filme, nesse momento deixamos de ser simples objetos e passamos a ser sujeitos da história.
Como é brilhantemente mostrado nas sequências da bolandeira que exprime a repetição circular do tempo.
Os personagens do filme transitavam entre a bolandeira, o tacho da rapadura e o destino.
Tudo seguia a norma, a tradição, o previsível, o cíclico, não havia lugar para o novo.
O trabalho era mecânico e apático como a bolandeira, não pertencia a eles, não havia alegria, nem felicidade na sua realização.
O trabalho imposto pelo pai patrão do filme traça um paralelo perfeito com aquelas organizações nas quais não há condições para a criatividade, para a motivação, para a mudança e onde o trabalho repetitivo e sem desafios torna as pessoas desmotivadas, alienadas e, pior que tudo, extremamente infelizes.
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