Coisa Mais LindaHISTÓRIAS MEMORÁVEIS DO RIO E DA BOSSA NOVA
por Myrna Silveira Brandão
Já não era sem tempo que o chamado movimento da Bossa Nova deveria ter sido mostrado nas telas de uma forma digna e não-pontual. Agora, finalmente, aconteceu.
“Coisa Mais Linda”, de Paulo Thiago, é um documentário que, além de surpreendente, é comovente, mesmo para aqueles que não viveram nos turbulentos anos 60.
O filme surpreende porque vem assinado pelas mãos de um diretor que não costumava entrar na área do cinema documental, com exceção de um filme seu mais recente – Poeta de Sete Faces, 2002, sobre Carlos Drummond. Ou, então, de forma tímida, tangencial e romanceada (Batalha dos Guararapes, 1983). Seus melhores momentos até agora no cinema quase sempre navegaram na ficção e no folclore (Águia na Cabeça, 1987, Jorge, um Brasileiro, 1992 e Policarpo Quaresma, Herói do Brasil, 2002).
Neste seu novo trabalho, ao longo de cerca de duas horas, a maioria dos espectadores acaba por sair da sala de cinema sabendo bem mais sobre o movimento (designação incorreta, segundo os puristas da sociologia, que afirmam ter sido a Bossa Nova muito mais um fenômeno histórico/político/artístico do que um “movimento” musical organizado, com direito a lideranças e manifestos) do que sabia antes.
Alguns momentos das falas de Carlinhos Lyra, Roberto Menescal e Paulo Jobim – filho de Tom e dono uma excelente, mesmo que despretensiosa técnica no violão – são verdadeiras aulas de teoria e história da nossa música. Tarik de Souza, Nelson Motta e Arthur da Távola também acrescentam, sobretudo o primeiro, visões e informações esclarecedoras sobre as harmonias e a batida que caracterizaram o estilo único e personalíssimo da Bossa.
O filme é emocionante, sobretudo para quem viveu aqueles momentos mágicos e não sabia que eles eram tão mágicos assim. Para esses, preparem os seus corações. Ouvir de novo músicas como O Barquinho, Chega de Saudade, Corcovado, Desafinado, Dindi, Eu sei que Vou te Amar, Fim de Noite, Garota de Ipanema e outras é um presente e nos proporciona momentos únicos. Rever os compositores e cantores (a sub-valorizada Wanda Sá, por sinal, merece um capítulo à parte, bem como quanto ao reconhecimento do papel importantíssimo que Newton Mendonça teve como parceiro de Tom ) e até as personalidades anexas que fizeram da Bossa Nova a maior contribuição brasileira para o universo da arte popular mundial é um exercício de emoções.
Além disso, Coisa Mais Linda nos lembra um Rio de Janeiro como a reconhecida cidade maravilhosa, com suas paisagens magníficas, seu alto astral e seus habitantes sociáveis e descontraídos, o que nos leva a concluir que não precisa muito para explorar e difundir seu enorme potencial e trazer de volta o brilho de uma metrópole que foi e continua sendo cantada em prosa e verso por poetas e compositores.
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