FabricaO PODER DE INOVAR NA RECONSTRUÇÃO DE UMA IDÉIA
Burton dá nova leitura à Fantástica Fábrica de Chocolate
por: Myrna Silveira Brandão
Reedições e refilmagens raramente resultam em bons livros ou filmes e quase sempre ficam muito aquém da versão anterior. Os remakes de Disque M para Matar de Hitchcock, de Os Implacáveis de Sam Peckinpah e de Solaris de Tarkovski, por exemplo, estão aí para nos provar que talento não se copia. No entanto, A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Tim Burton, refilmagem do filme de Mel Stuart (71), pode ser considerada uma exceção honrosa. O filme de Burton não fica nada a dever ao clássico que encantou crianças de todas as idades. Muito pelo contrário, o diretor de Edward Mãos de Tesoura e Ed Wood, acrescenta valor e dá uma nova assinatura à história, aprofundando temas mais atuais ligados ao mundo empresarial, ao relacionamento humano e à ética.
O filme, baseado no livro homônimo de Roald Dahl , mostra Willy Wonka (Johnny Depp interpretando o personagem vivido por Gene Wilder na versão de Stuart) vivendo solitário em sua fábrica. Um dia, ele decide abrir as portas para cinco crianças que encontrarem um convite na embalagem de uma barra Wonka. Uma delas ganhará um prêmio especial.
Há o menino alemão glutão Augustus que acaba encontrando o bilhete premiado, há a garota inglesa mimada Veruca cujo pai lhe faz todos os caprichos, há a menina americana super competitiva Violet, que quer ser campeã e é estimulada pela mãe a passar por cima de tudo para atingir seus objetivos e há o alienado Mike, viciado em videogames. O único que preserva a inocência é Charlie (Freddie Highmore), o menino pobre.
Charlie até tenta trocar o seu passe por dinheiro para melhorar a vida da família, mas os avós e os pais não permitem. Esse era um dos maiores desejos dele e agora surge a oportunidade de visitar a maior fábrica de chocolate do mundo, propriedade do milionário Willy Wonka. Há que realizar os sonhos.
Flashbacks procuram mostrar porque Wonka fechou a fábrica para o mundo exterior, porque se tornou quem é, bem como seus problemas com o pai.
Diferentemente da primeira versão – que era bem mais ingênua – a refilmagem coloca mais em evidência certos comportamentos que acontecem na vida de pais e filhos no mundo contemporâneo, mas a questão ética permanece presente e atual.
Faltam algumas cenas memoráveis da produção original e a fábrica não tem o mesmo esplendor, mas em compensação os sets são bem maiores, o cenário tem um belo visual e os rios de chocolate foram realizados com efeitos especiais. Claro que o orçamento do novo filme nem pode ser comparado com o primeiro, que custou meros três milhões de dólares.
Embora David Kelly, que faz o avô, não consiga passar a mesma emoção expressada pelo ator Jack Albertson, ele tem o grande mérito de não ter procurado imitá-lo e de dar sua própria interpretação para o personagem
A nova versão é mais instigante que a de Mel Stuart e bem mais fiel à alma do livro de Roald Dahl.
Mais realista e coerente com os dias de hoje, entra mais fundo no terreno da espionagem industrial, quando mostra como Wonka ficou cansado de ter seus segredos roubados por concorrentes, que subornavam os empregados para obter as receitas dos doces.
O melhor que pode ser dito sobre a versão de Burton é que a Fantástica Fábrica de Chocolate 2005 é um ótimo outro filme baseado no mesmo livro. E que há sempre uma forma de renovar excelentes idéias do passado adaptando-as aos dias de hoje.
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